Há vinte anos, em setembro de 1996, quando a internet ainda engatinhava no Brasil, minha banda de rock nacional do coração, Legião Urbana, lançava o mais sombrio e depressivo de seus álbuns: A Tempestade. O disco retrata um Renato Russo frágil, sem a potência vocal que o caracterizava, mantendo apenas – ainda que em doses muitas vezes carregadas – a melancolia e o lirismo que marcaram a fase pós-punk do grupo. 
Profissionais que conviveram com o cantor naquela época contam que, apesar da debilidade, Renato se esforçou como nunca para concluir as gravações. Parecia que queria deixar uma espécie de registro de sua tragédia pessoal para os fãs. 

“Esperando Por Mim” é a faixa mais profunda do álbum e a que melhor sintetiza, com honestidade e beleza, os traços estilísticos do compositor e a consciência que tinha do momento vivido. Em seus versos mais lúcidos – alguns dirão “pessimistas” – ele escreve: “Digam o que disserem/o Mal do Século é a solidão/Cada um de nós imerso em sua própria arrogância esperando por um pouco de afeição”. 

Renato morreu em outubro, um mês depois do lançamento do disco, e não viu os efeitos do avanço tecnológico das comunicações nas mentes despreparadas dos jovens, seu principal público. Hoje, com a popularização da internet e o aparecimento de seus avatares alheios ao autoconhecimento, o fingimento e a ‘solidão coletiva’ são multiplicados em escala viral. A rede é um festival de fotos alegres que mascaram almas tristes, e, na esfera íntima, fica a sensação de que todos estão felizes menos “eu”. 

E, no lugar de se aceitar a própria miséria interior como princípio da solução, prefere-se fugir da realidade, alimentando o círculo vicioso do fingimento. Renato Russo foi um artista “pré-internet”. Se estivesse vivo, talvez concordaria que, em tempos de autoengano ‘viralizado’, o mal do século é a ilusão. Crônicas radiofônicas de João Cássio, um olhar atual sobre os temas do rock mundial.

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Assessoria João Cássio

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